terça-feira, 28 de outubro de 2008

Acta da Instalação da primeira Junta da Paróquia da Gafanha da Nazaré

“Aos dois de Janeiro de mil novecentos e catorze, achando-se reunidos na casa das sessões da comissão paroquial Administrativa desta freguesia da Gafanha do Concelho de Ílhavo os cidadãos José Ferreira de Oliveira, João Sardo Novo, Jacinto Teixeira Novo, José Maria Fidalgo, Manuel Ribau Novo, membros efectivos da referida comissão durante a gerência de vinte e sete de Outubro de mil novecentos e dez a trinta e um de Dezembro de mil novecentos e treze, e os cidadãos José da Silva Mariano, Manuel José Francisco da Rocha, Manuel Conde, Alberto Ferreira Martins, João Sardo Novo, ultimamente eleitos membros efectivos da nova junta da Paróquia desta freguesia da Gafanha, como consta das respectivas actas arquivadas na secretaria da Câmara Municipal deste concelho e na secretaria do Governo Civil deste distrito, os membros daquela comissão administrativa e o senhor regedor desta freguesia, Silvério Vieira, que também estava presente, à vista da nota comprovativa da referida eleição emanada do Governo Civil, transmitiram aos membros da nova Junta todos os poderes que em virtude da mencionada eleição lhes foram conferidos. Todos juraram cumprir fielmente as leis do país, como cidadãos da República Portuguesa, e com zelo e patriotismo desenvolver o progresso, moral e material (social) desta freguesia. E constituindo-se em sessão, elegeram seus presidente e tesoureiro, recaindo essa eleição nos cidadãos (por unanimidade) José da Silva Mariano, como presidente, e João Sardo Novo como tesoureiro, nomeando seu secretário o vogal Alberto Ferreira Martins. E não havendo mais nada a tratar, o presidente mandou encerrar a sessão de que se lavrou a presente acta que depois de lida vai ser assinada por todos e por mim, Alberto Ferreira Martins secretário que a escrevi”. “Em tempo: A nova junta também elegeu para vice-presidente Manuel José Francisco da Rocha e deliberou que as suas sessões se efectuassem na sacristia do lado oeste da Igreja Paroquial desta freguesia pelas onze horas do primeiro e terceiro domingo de cada mês. Declara-se que a eleição de tesoureiro e nomeação do secretário supra mencionadas são de carácter provisório, cessando para esses indivíduos as respectivas funções logo que esses cargos sejam providos nos termos da lei. E não havendo mais nada a tratar, o presidente mandou encerrar a sessão de que se lavrou a presente acta que depois de lida vai ser assinada por todos e por mim, Alberto Ferreira Martins, secretário que a escrevi.” José Ferreira de Oliveira João Sardo Novo José Maria Fidalgo Manuel Ribau Novo José da Silva Mariano Manuel José Francisco da Rocha Manuel Conde O Secretário – Alberto Ferreira Martins
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Dia das Bruxas

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Cabeças-fantasma com vela dentro
Comemora-se, no dia 31 de Outubro, o Halloween, festividade que remonta ao povo Celta e tem a ver com rituais pagãos, entre nós, chamado Dia das Bruxas. Amada pelas crianças que vêem, neste dia, um escape para a sua irreverência e desculpa para pregar partidas, o Sweet or treat, confirma este fenómeno, é simultaneamente contestada e repudiada por muitos outros.Alegando que não tem nada a ver com a nossa cultura, contestam uns tantos que estamos a sofrer uma aculturação, em relação aos povos de origem anglo-saxónica, nomeadamente dos EUA, donde foi importada esta celebração. Materializando-se numa série de objectos comercializados profusamente pelo comércio, tem a sua expressão e simbologia máximas na utilização das abóboras. Estas são descarnadas, abre-se-lhes uma tampa em cima e desenha-se uma cara, pela excisão de pequenos pedacinhos que correspondem aos olhos, nariz, boca. Dentro das mesmas é colocada uma vela e aí temos o que nos países de Língua Inglesa chamam, o Jack-o’-Lantern! Esta figura bizarra e fantasmagórica era colocada em locais frequentados, mas pouco visíveis. Este ritual acontecia no Outono, em plena época das colheitas. Reportando-me aos meus tempos de juventude, e porque nasci no século passado, na época áurea dos Beatles, evoco algo que, pela sua similitude, merece a minha referência. Terminada a colheita do milho, que por estas terras das Gafanhas tinha um cultivo muito abundante, procedia-se ao seu acondicionamento: primeiro, fazia-se a desfolhada, aqui para nós designada por desmantadela, seguida da debulha, por debulhadoras mecânicas. Finalmente, depois de permanecer na eira por vários dias, sob os raios do sol escaldante, para ficar completamente seco, era armazenado em celeiros próprios, de grandes proporções, aqui chamados caixas do milho. Quando se viam os campos despidos, o milho recolhido e as abóboras colhidas e arrumadinhas em linha, por cima dos telhados, acontecia esta cena tão habitual, quanto insólita. Os membros mais jovens das famílias dos agricultores, ou semiagricultores, dedicavam-se a esta tarefa invulgar: desventravam as abóboras e construíam cabeças-fantasma, com uma vela dentro. Acabada a operação, punham a tampa na abóbora e iam colocá-la nas encruzilhadas dos caminhos e em sítios esconsos. Remontando às origens primitivas da utilização destas “lanternas”, ressalta aqui um paralelismo entre a tradição anglo-saxónica e estes costumes de terras gafanhenses. Isto foi vivenciado por mim, mas é possível que haja relatos orais mais aprofundados, desta mesma tradição, aqui na nossa terra. Madona

domingo, 26 de outubro de 2008

FOTO COM DESAFIO

:Preparação da mesa comum. Foto do meu arquivo


Esta foto é um desafio à memória de todos os gafanhões, sobretudo dos mais velhos. Sei que se trata de uma mesa para um convívio paroquial, do tempo do Padre Miguel Lencastre, numa altura em que ele procurava implementar a aproximação de toda a gente. Como acreditava que à volta de uma mesa comum tudo seria mais fácil, resolveu avançar com a ideia de uma enorme, não direi gigante nem com pretensões a alcançar qualquer recorde, mas tão-só capaz de juntar, à volta dela, muita gente. Penso que foi no Jardim Oudinot, porque são visíveis as palmeiras, símbolo do jardim, tal como hoje. Cada família levava o farnel, que era partilhado por toda a gente. Ainda não tive tempo de investigar a data e mais pormenores, mas prometo fazê-lo, logo que tenha tempo e acesso aos antigos Timoneiros. Acho que o relato deste convívio, como de outros eventos, deve estar registado em letra de forma. Até lá, convido os meus amigos a ajudarem-me neste trabalho. Fico a aguardar.
Fenando Martins
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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

O trabalho não azeda

: O trabalho não azeda. (o trabalho pode esperar sem consequências de maior) Claro que isto se referia ao trabalho agrícola, num ambiente marcadamente rural. A escolha do dia para “semear” as batatas, plantar as couves ou regar o milho, era aleatória. Os agricultores de então trabalhavam muito, de sol a sol! Despendiam muito esforço físico, na labuta da sua jorna, o que se resolvia, facilmente, com uma boa noite de sono. Não tinham stress, estes trabalhadores rurais, nada que se comparasse aos nossos dias. Eles próprios tinham autonomia para fazer os seus horários! Nesta situação, estavam equiparados aos executivos das grandes empresas, que gozam de isenção de horário de trabalho! Madona
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segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O assador de castanhas

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Aparecia, quase em simultâneo, com o início das aulas, nos meus tempos de menina e moça! As primeiras aragens frias do Outono traziam, à nossa cidade, aquela figura típica e tão apreciada por todos. Era o assador de castanhas! O seu carrinho improvisado com a panela tosca, esburacada, para assentar nas brasas quentes, era uma presença obrigatória nas ruas da cidade. No regresso das aulas, quase ao entardecer, o ar rescendia ao aroma quente e adocicado das castanhas. Tão apetecidas, tão apreciadas, com a casca estaladiça e prateada, faziam as delícias de miúdos e graúdos! Era um acorrer aos locais onde se encontravam os vendedores, nas esquinas das ruas, em locais muito frequentados. Quentes e boas! Quentes e boas! – O pregão soltava-se da boca dos assadores, que procuravam atrair uma clientela ávida de saborear tão apetitoso petisco! E ali, por cima do carrito, estavam as castanhas arrumadinhas ao lado do papel de jornal, onde iriam ser embrulhadas para entregar aos clientes. Belos tempos, em que se comiam as castanhas embrulhadas em papel de jornal e ninguém tinha problemas com isso! Belos tempos!
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Madona
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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Para rir... Ruralidades...

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Um dia, à autora destas linhas, no cumprimento das suas tarefas de “Jovem Agricultora”, aconteceu um episódio insólito. Na sua actividade agro-pecuária, deparou com esta cena bizarra: ocupava-se a dar o alimento aos coelhinhos, tão fofinhos, quanto roedores. Uma galinha que dividia o espaço com os coelhos, numa promiscuidade inofensiva, começa a “espenicar“ o botão, nas bermudas da sua dona. Com efeito, essas calças que a dona trazia, pelo meio da perna, como todas as jovens (?) usam, hoje em dia, são rematadas em baixo por uma tira, com um botão. Este, semi-esférico e grande, criou no cérebro minúsculo da galinha, a imagem de um bago de milho Large size. A dona que não come milho, nem gosta de botões… consegue distingui-los muito bem!!! A galinha que come milho e, pelos vistos, parece cobiçar os botões, não vê a diferença entre ambas as coisas. Isto só confirma o aforismo popular que diz: “as galinhas são mesmo estúpidas!” ...
Era um termo muito usado nestas terras das Gafanhas: fazer as camas às vacas; cobrir o chão do estábulo, com estrume. (Dava-se esta designação, ao junco colhido nas praias, junto à ria) . A seguir ao seu transporte para casa do lavrador, directamente do moliceiro que o apanhara na praia, era colocado num monte grande, habitualmente no exterior da casa, chamado relheiro ou rolheiro. (É Maneli, vai ao relheiro, buscar uma gabela de estrume para fazer as camas às vacas, homi!). O que sempre me fez espécie foi a expressão no plural – as camas. Será que cada vaca ou boi dormia em camas separadas? Mas, no caso duma vaca solteira, eu ouvia, precisamente a mesma expressão: as camas da vaca! Seria tão corpulenta que abarcaria mais que uma cama? Também pensei num estábulo grande, tipo camarata ou vacaria, usando o termo específico, em que as vacas estivessem todas alinhadinhas em camas individuais. Os bovinos estavam num lugar superior, na hierarquia dos animais domésticos. Eram os únicos que tinham direito a cama, mesa (manjedoura) e “lençóis” lavados! Seria a retribuição pelo precioso néctar que elas repartem entre os filhotes, os bezerros, e o homem que nem sempre lhes retribui essa generosidade? Deixo a pergunta no ar!
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Madona
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quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Saúde nas Gafanhas

: Primeiros médicos e primeira farmácia
O ano de 1940 foi marcante, a nível de saúde, para a Gafanha da Nazaré, com os primeiros médicos a fixarem-se entre nós e com a primeira farmácia. Segundo a "Monografia da Gafanha", do Padre João Vieira Rezende, em 1940 estabeleceu consultório médico com residência na Gafanha da Nazaré o Dr. Joaquim António Vilão, natural de Mata-dos-Lobos, concelho de Figueira-de-Castelo-Rodrigo. Também nesse ano e na mesma Gafanha, de onde era natural, o Dr. Maximiano Ribau, felizmente ainda vivo, montou o seu consultório. No mesmo ano, abriu a primeira farmácia – Farmácia Morais – a Dra. Maria Ester Ramos da Silva Morais, também com saúde e como sempre na direcção da mesma farmácia, natural do Porto. Presumo que a Farmácia Morais é o mais antigo estabelecimento comercial das Gafanhas.
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sábado, 11 de outubro de 2008

TIMONEIRO — Jornal paroquial

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TIMONEIRO

O TIMONEIRO nasceu por iniciativa dos párocos das freguesias das Gafanha da Nazaré, Encarnação e Carmo, respectivamente, Padres Domingos José Rebelo dos Santos, António Augusto da Silva Diogo e José Soares Lourenço, em Dezembro de 1956. Publicava-se mensalmente e a sua tiragem inicial era de 1500 exemplares. Aliás, sempre se publicou com essa periodicidade, embora por vezes houvesse alguma irregularidade.
Por dificuldades de vária ordem, em 1958 a Gafanha da Encarnação desligou-se e em 1964 era já propriedade exclusiva da paróquia da Gafanha da Nazaré. Durante alguns anos integrou um grupo de Boletins Paroquiais, o que lhe proporcionava a utilização de alguns artigo, principalmente na primeira e última página.
Desde a sua fundação até à entrada na paróquia do Padre Miguel Lencastre, como coadjutor, o TIMONEIRO era escrito, quase na íntegra, pelo seu fundador e director, Padre Domingos. Nessa altura, um grupo de leigos, com algumas responsabilidades na freguesia, aceita colaborar com a finalidade de tornar o jornal mais representativo da comunidade. Desde então, têm sido inúmeros os seus colaboradores, mantendo-se o pároco como primeiro responsável e director, regra que tem acontecido até aos dias de hoje.
Dificuldades económicas puseram em questão a sua continuidade na década de setenta do século passado, dizendo-se, na altura, que a paróquia não podia “suportar tal luxo”. No entanto, durante uma viagem ao Brasil, o Padre Miguel pôde testemunhar o carinho com que o TIMONEIRO era recebido. E a partir daí nunca mais se falou “em luxo”, porque se reconheceu que o jornal era uma necessidade, também para os muitos emigrantes gafanhões espalhados pelo mundo.
Durante os anos da sua existência adoptou diversos formatos e outros tantos cabeçalhos, bem como foi variando o número de páginas. Em 1985 optou pelas 12 páginas com capas a duas cores, mantendo-se mensal, mas reduzindo a tiragem para mil exemplares, nunca tendo sido estudada a causa da falta de interesse de alguns paroquianos.
Inicialmente o jornal era distribuído pelos “Zeladores do Sagrado Coração de Jesus”, conforme aviso lido às missas do dia 23 de Dezembro de 1956, que reza assim: “… bater a todas as portas, apontando o nome, visivelmente, e investigando se querem que o jornal seja entregue pessoalmente ou pelo correio.” Todos, então, optaram pelo seu recebimento por mão própria, e só muito mais tarde, quando se verificou o cansaço de alguns “zeladores”, é que passou a ser distribuído pelos CTT.
Em 1986, o seu preço avulso era de 30$00, sendo a assinatura anual de 350$00 (Portugal) e de 500$00 (estrangeiro). Um ano antes conseguiu o Porte Pago, o que levou a que, com alguma publicidade, se tornasse economicamente independente.
Foram seus directores , até 1986, os Padres Domingos, Miguel e Rúbens, sendo Fernando Martins o responsável pela Redacção. Desde a primeira hora, o TIMONEIRO procurou ser um órgão oficial da comunidade católica, mas aberto à comunidade humana, com a inserção nas suas páginas de temas de âmbito geral.

Fonte: “GAFANHA – N.ª S.ª da Nazaré",  de Manuel Olívio da Rocha e Manuel Fernando da Rocha Martins
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sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Tradições das Gafanhas

: MULHERES HEROÍNAS
No tempo em que as terras das Gafanhas eram amanhadas, vivia-se numa sociedade quase matriarcal. Com efeito, com os maridos embarcados para a pesca do bacalhau, a mulher ficava encarregada de quase todas as tarefas: domésticas e agrícolas. Até, quando nasciam os filhos, havia apenas uma “curiosa” que dava uma ajudinha aos bebés, para entrarem neste mundo cruel. Quando as jovens mães iam para “a terra” trabalhar, eram obrigadas a levar consigo os seus rebentos. Na altura, não havia as “babysiters”, os infantários, as creches. Nem tampouco as amas particulares, já que todas as mulheres tinham a mesma ocupação. A esse tempo, não havia diferenciação profissional, nem sindicatos para defender (?) os direitos dos trabalhadores! Nada iria reduzir para 8 horas de trabalho, a jorna diária, àqueles que trabalhavam de sol a sol. No Inverno, o astro-rei, compadecia-se destas mulheres heroínas, retirando-se um pouco mais cedo. Não havendo, na altura, estruturas sociais de apoio às jovens mães e à criança, deparava-se-lhes um problema: onde deixar os bebés? Usando dum pragmatismo, tão peculiar nestas mulheres e mães, a solução brotava, tão límpida como água, que jorra da fonte. Os cabazes, cestas grandes comprados às ciganas, utilizados para os mais diversos fins, passavam a ter uma utilidade acrescida. Uma alcofinha redonda, de verga, revestida dos mais finos lençóis de cambraia (!?) nascia da imaginação destas corajosas mães. Enquanto trabalhavam, na freima, do campo, os seus rebentos, na extrema da terra, à sombra do milho alto, eram embalados pela sinfonia dos passarinhos. Que felizes eram essas crianças! O seu soninho angelical, não era perturbado pelo ruído, às vezes ensurdecedor, das nossas cidades e vilas. Ali, só se ouviam acordes musicais, no chilreio das avezinhas. Quem não dorme ao som da música? Poder-se-á dizer, com toda a propriedade, que bebés e às vezes adultos, numa sesta roubada ao horário de trabalho… dormiam o sono dos justos! Foi assim, que a autora destas linhas ganhou amor à natureza e à vida bucólica! Madona
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Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré - 3

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Filiação na Federação do Folclore Português
Entretanto, o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré não pára. Aspira a mais. E esse mais, passa, indubitavelmente, pela filiação na Federação do Folclore Português, entidade máxima para controle da genuinidade dos grupos etnográficos e de folclore. Em resposta a um ofício do Grupo de 15 de Julho de 1986, Severim Marques, membro do Conselho Técnico Regional daquela Federação, refere-se a uma Exposição Etnográfica organizada pelo Grupo que visitou em 7 do mesmo mês. E sublinha: “a vossa exposição agradou-nos sobremaneira e deu-nos até bastante satisfação por constatarmos que o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, no limiar da sua vida, agora tomada a sério, manifestou o sentido e a consciência do que é o folclore, que não é nem mais nem menos que uma parte das páginas brilhantes do grande livro da cultura popular. O folclore não é só trajar, dançar e cantar ao som de melodiosas músicas tiradas de instrumentos musicais que os nossos avoengos utilizaram no seu espaço e no tempo, não! O folclore é um mundo de tradições do nosso povo que é preciso preservar.” Depois de considerar a exposição como “uma valiosa mostra das potencialidades das boas gentes de antanho das Gafanhas”, bem como “o espelho de uma força de vontade que, naturalmente, terá por detrás de si algo de bem organizado, com ordem e mérito”, Severim Marques frisa que “o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré poderá vir a enfileirar com os melhores agrupamentos folclóricos do nosso País”. Por outro lado, aquele responsável regional pelo folclore anuncia que “só depois de vermos o Grupo, incluindo como é óbvio dançarinos/nas, tocata, figurantes devidamente trajados”, e de se certificarem do valor das “recolhas, origem dos trajes de festa, domingar, romaria e dos vários trajes de trabalho e porventura outros”, mas também do que diz respeito “às danças e músicas, bem como ao uso e utilização dos instrumentos musicais que os vossos antepassados usaram e utilizaram em romarias”, é que se procederá à admissão do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré no seio da Federação do Folclore Português. Este ofício de Severim Marque mostra à evidência que o Grupo teve de percorrer um longo caminho de recolha, selecção, estudo, registo, ensaio e apresentação das tradições etnofolclóricas das Gafanhas, até chegar a fazer parte de pleno direito da Federação do Folclore Português. Em 16 de Maio de 1988, o presidente da Federação, Augusto Gomes dos Santos, informa por ofício que tem a honra de comunicar que, “por proposta do Conselho Técnico Regional, o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré reúne condições para ser inscrito” na Federação como sócio efectivo, o que veio a acontecer precisamente nessa data. Entretanto, o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, quase desde os primeiros passos, participa em inúmeros espectáculos e festivais etnográficos e folclóricos por todo o País, incluindo os Açores, e mesmo pelo estrangeiro. Actua em França, Alemanha, Itália, Espanha, participa em espectáculos na RTP, grava para o filme “Os Pescadores”, sobre a obra homónima de Raul Brandão, o escritor que porventura mais e melhor cantou a Ria de Aveiro, e organizou na terra que lhe serve de berço 19 Festivais Nacionais de Folclore, alguns deles com a marca de internacionais. Este ano será, portanto, o XIX Festival. Por outro lado, não descurou a organização de dois Colóquios: um em 1993, sobre “Gafanhas: usos, costumes e tradições”; e outro, em 1998, sobre “A pesca do bacalhau — o que foi”. Participou em diversos espectáculos na EXPO’98 e até 1999 organizou quatro Encontro de Cantares de Janeiras. De registar, ainda, o seu envolvimento em várias exposições ligadas à etnografia, especialmente na Gafanha da Nazaré. O Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré é, desde Fevereiro de 1995, Associação de Utilidade Pública. Antes disso, porém, mais concretamente desde 26 de Junho de 1991, foi galardoado pela Câmara Municipal de Ílhavo com a Medalha de Mérito Cultural, por proposta da Assembleia e da Junta de Freguesia da Gafanha da Nazaré. Diz o ofício da Junta de Freguesia enviado à Câmara Municipal: “Anexamos proposta aprovada por unanimidade na Assembleia de Freguesia da Gafanha da Nazaré em sua reunião de Abril [1991], mandatando a Junta de Freguesia para desenvolver acções junto da Câmara Municipal de Ílhavo, no sentido de ser atribuída a medalha de mérito cultural ao Grupo Etnográfico da Vila da Gafanha da Nazaré. A Junta de Freguesia deliberou, por unanimidade, dar seguimento à proposta, por estar de acordo com o seu conteúdo, Ass) Mário Fernandes Cardoso Júnior, presidente da Junta de Freguesia”. E em nota, há o seguinte registo: “O presidente [Manuel da Rocha Galante] subscreve os considerandos subscritos pela Assembleia de Freguesia e canalizados à Câmara pela Junta de Freguesia. Foi deliberado por unanimidade concordar com a presente proposta.” Fernando Martins :

JORGE RIBAU BRINDA-NOS COM A CHORA

Receita O prato  A nossa gastronomia tem muito mérito com muitos sabores, mas tem estado um pouco esquecida, por culpa, nat...