quinta-feira, 30 de abril de 2009

Marcos Cirino desfia recordações

Barcos da Ria

Marcos Cirino desfia recordações 
com muito amor à Gafanha da Nazaré

Marcos Cirino da Rocha, 87 anos, gafanhão de gema, vibra com as coisas da Gafanha da Nazaré. Conhece muito da sua história. Evoca com entusiasmo os assuntos em que se envolveu. Conta pormenores que escapam a muito boa gente. E insiste na ideia de que há pessoas que nos querem prejudicar, decerto marcado por tempos e comportamentos idos. Fomos ouvi-lo um dia destes. Entrámos em sua casa e vimos miniaturas de barcos de várias épocas. Todos construídos por si. “À escala”, sublinha. Mas também vimos inúmeras pastas de documentos e processos relacionados com antigas, e talvez recentes, reivindicações e polémicas. Marcos Cirino começou a trabalhar com 13 anos nas oficinas da Aviação Naval Almirante Gago Coutinho, o herói que fez, com Sacadura Cabral, a primeira ligação aérea, de Lisboa ao Rio de Janeiro, em 1922. “Conheci-o pessoalmente, em São Jacinto, quando ele visitou a Base, a convite do Comandante Cardoso de Oliveira”, garantiu-nos. Trabalhou na reparação de hidroaviões, “na construção de asas e até de aviões de treino”. Recordou o Sargento Moreira, artífice na construção de hélices, um homem inteligente, artista, e grande profissional. “Mas muito exigente”, sublinhou.

Barco do mar

Muitos homens da Gafanha da Nazaré ali trabalhavam, como operários civis, em cooperação com militares. E em 1952, bastantes profissionais foram distribuídos pelas Bases Portuguesas, entretanto enquadradas pela Força Aérea. “Eu fiquei em São Jacinto, por ser um dos mais antigos”, frisou. Contudo, em 1967, ingressou na Base da NATO, em Ovar (Maceda). Aposentou-se em 1983, com 48 anos de serviço. Mas como não gosta de se acomodar, continua debruçado sobre a história da nossa terra, pugnando por aquilo que lhe parece justo. Quando lhe falei das ruas da Gafanha da Nazaré, de imediato recuou ao passado. E disse: “Há muitos anos, havia um carteiro, o senhor Reis, que, vindo de Aveiro, deixava a correspondência em estabelecimentos estratégicos, nomeadamente, de Alberto Martins, Manuel Cravo, Caçoilo da Rocha e Joaninha Bola. Seguia para o Forte, Farol e Costa Nova. No Forte, uma senhora, Rita de seu nome, esperava o correio para o levar para São Jacinto.” As pessoas, como é natural, tinham de procurar as cartas nesses locais. E ali entregavam a correspondência para seguir o seu destino, explicou-nos. Quando a correspondência atingiu um número significativo, houve necessidade de baptizar as ruas, para facilitar a distribuição. Mestre Rocha, como presidente da Junta, avançou com uma proposta de certo modo inédita, para identificar as ruas. As letras do alfabeto passaram a ser nomes de ruas. Mas tal solução, tão incaracterística, não resultou, salientou Marcos Cirino. “Não havia letras para tantas ruas”, esclareceu.

Santa Maria Manuela


Posta a questão à Câmara Municipal de Ílhavo, avançou a ideia de atribuir nomes, de pessoas, às nossas ruas, sendo presidente da Junta o comerciante Albino Miranda. Uma comissão constituída pelo Capitão Ferreira da Silva, Dr. Maximiano Ribau, Baltasar Vilarinho, João Ribau, Marcos Cirino e outros, numa noite, escolheu 60 nomes para toda a freguesia, da qual faziam parte, como ainda fazem, o Forte e Barra. Durante o desfiar de recordações, tanto quanto o permitiu a sua memória, passámos ao Mercado da Gafanha da Nazaré. Os agricultores começaram a vender os seus produtos na rua em frente à igreja matriz. A seguir vieram outros vendedores. O trânsito começou a ficar complicado. A Junta deslocou, então, o mercado para a parte lateral da igreja, até ao cemitério, disse-nos Marcos Cirino. Mais tarde, com o número cada vez maior de vendedores e compradores, sentiu-se a urgência de construir o Mercado, o mesmo que foi há tempos demolido para dar o lugar, noutro sítio, a um mais moderno. Marcos Cirino, apoiando a Junta de Freguesia, andou com outros a fazer um peditório. O povo colaborou, o Mercado foi construído e por fim a câmara chamou a si a exploração, o que não agradou a muitos gafanhões.

Miniaturas de barcos 
são a grande paixão de Marcos Cirino



Nau São Vicente



Quando entrámos na residência de Marcos Cirino fomos surpreendidos pela existência de miniaturas um pouco por todo o lado. A decoração tem a marca dessa sua paixão. Com algumas delas, participou em diversas exposições. No País, sobretudo, mas também na Suécia, onde apresentou as embarcações da nossa laguna, com a explicação da função de cada uma. São miniaturas da Ria e do Mar. De todas as miniaturas, distingue-se a Nau S. Vicente, pelo valor dos pormenores e pela beleza. Garante que foi feita à escala, segundo planta do Ministério da Marinha, e projectos de Arménio Mónica, filho do Mestre Manuel Maria Bolais Mónica. Apreciámos quanto estava exposto. E sobre cada barquinho, lá ia explicando: Caravela do séc. XV, para a pesca do bacalhau; Gazela I e Brites; Sebastião D’El Cano, de Espanha, equivalente à nossa Sagres; bateiras, moliceiros e mercantéis da Ria de Aveiro; Santa Maria Manuela; Navegante, cuja construção custou 12 contos de réis, em 1921; Barco do Mar de quatro remos. Paralelamente à construção de miniaturas, Marcos Cirino tem recolhido, de antigos carpinteiros navais, algumas ferramentas, que gostaria de ver expostas num museu para esse fim criado, já que esta arte tende a desaparecer com a morte dos últimos mestres da construção de barcos de madeira. Mas como já há outros museus…

 Fernando Martins

sábado, 25 de abril de 2009

Onde estavas no 25 de Abril?

Onde estavas no 25 de Abril? Esta pergunta, que Baptista-Bastos fixou sobre a revolução dos cravos, baila muito na minha cabeça. Também eu me questiono com ela, quando o 25 de Abril vem. E afinal onde estava, realmente? Quando a liberdade veio, com a força para muitos de nós desconhecida, tinha eu já 35 anos. Na manhã desse dia, levantei-me sem saber de nada. Como a grande maioria dos portugueses. Estava destacado, profissionalmente, para uma tarefa do Ministério da Educação, ao tempo chefiado por Veiga Simão. Animava bibliotecas populares e outras, promovia e apoiava cursos de adultos, dinamizava instituições de cultura e recreio, formava bibliotecários e preparava professores para a difícil missão de ensinar gente crescida a ler e a escrever. Gostava muito do que fazia. Nesse dia, o concelho de Sever do Vouga estava na agenda. Saí de casa e meti gasolina na Cale da Vila. Nesse ínterim, liguei o rádio portátil para ouvir as notícias. Perplexo, achei estranho sentir o rádio confuso. Avaria? Não. Uma voz anunciava o que estava a passar-se em Lisboa. Na mesma bomba de gasolina, a Sílvia Cachim, esposa do amigo José Manuel Saraiva, com o seu bebé no carro, dirigia-se para a escola, para mais um dia de trabalho. Através do rádio, percebi bem o conselho. Com um movimento de tropas na rua, e porque não desejavam derramamento de sangue, os chefes aconselhavam as pessoas a ficar em casa. A Sílvia estava como eu. De nada sabia. E seguiu para a sua escola. A paz à minha volta, com gente que se dirigia para os seus empregos, disse-me para prosseguir, rumo a Sever do Vouga. Curvas e contra-curvas, não era como agora, em que se atinge o destino num esfregar d’olhos. Na freguesia de Paradela, talvez por volta das 9.30 horas. A colega, D. Irene, grávida mas sorridente, recebeu-me na escola à beira de sua casa. Disse-lhe o que se passava e ela admirada e preocupada correu para o telefone, para falar com o marido, o agora major Rocha, meu conhecido e amigo, que estava no quartel. Contacto impossível. Inquietação a marcar o rosto da colega Irene. Depois de uma prelecção aos seus alunos, o almoço numa pensão com café, em Sever. Penso que Belavista. Na hora da bica todos os olhares fixos na RTP que se apresentava muda e queda. O rádio, idem. Militares que procediam a estudos e a medidas topográficas na serra, atentos como nós. Sabiam tanto como o comum dos mortais. Mais uma bica, depois o lanche, quando um militar, julgo que o capitão Durand, tentou, mais para o fim da tarde, ler um comunicado. Era interrompido com cortes na hora de falar. Boicote de técnicos da TV, soube-se depois. Veio o fim do dia. Visita ao curso de adultos em Rocas do Vouga. Eu e o professor Evaristo bem esperámos pelos alunos. Mas nada. Eles seguiram o conselho dos militares. Não saíram de casa. E a aula não aconteceu. À noite, em casa, a minha família e uns vizinhos esperámos pelas novas. A Junta de Salvação Nacional, a passo lento, surgiu nos corredores da RTP até aos estúdios. Rostos fechados, mas serenos, dos escolhidos pelo capitães de Abril. E a liberdade foi anunciada. Não conheci ninguém que não rejubilasse nesse dia. E depois nos dias que se seguiram. 25 de Abril de 2009, 35 anos depois. Fernando Martins

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Gafanha da Nazaré: um pólo de atracção populacional

“(…) 51,2% dos entrevistados não é natural da Gafanha da Nazaré. Para ali foram pelos mais diversos motivos, como o casamento com alguém da povoação (20,8%), a existência de laços familiares (20%) ou a construção de habitação residencial (4,8%), indiciando este dado alguma tendência à fixação na Gafanha da Nazaré por pessoas que trabalham noutros locais. Entretanto, o factor determinante da ida para a povoação prende-se, de facto, com motivos relacionados com o trabalho (54,4%). A Gafanha da Nazaré apareceu para a quase totalidade destes como um local atractivo para o exercício da sua actividade profissional.” In “Gafanha da Nazaré – Escola e comunidade numa sociedade em mudança”, de Jorge Carvalho Arroteia e outros. Edição do Instituto de Inovação Educacional, ano 2000.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Gafanha da Encarnação: Inauguração do Cruzeiro, em 1940

Jornal onde foi publicado o discurso do Padre João Vieira Rezende.
Faz parte dos meus arquivos

Padre Rezende

Cruzeiro actual


Cruzeiro dos Centenários na Gafanha
Lê-se no Correio do Vouga, semanário católico e órgão da Diocese de Aveiro:
"Conforme prometemos no último número deste jornal, publicamos hoje [14 de Setembro de 1940] o discurso proferido pelo Rev. P.e João Vieira Rezende, na inauguração do Cruzeiro dos Centenários, na Gafanha da Encarnação:
Eis-nos aqui, em frente dêste monumento histórico, que na algidez e dureza da sua pedra, ficará a atestar pelas eras em fora a nossa fé e a nossa piedade. Alem disso, será êle também um documento e um testemunho de que nós, o povo da Gafanha da Encarnação, não quisemos ficar insensíveis e indiferentes a êsse movimento de fé e de patriotismo, que há quási dois anos tem alastrado de norte a sul de Portugal.
Colaboraremos também nós, com essas entusiásticas e vibrantes manifestações dos dois amores lusitanos: o amor de Deus e o amor da Pátria. Êste humilde plinto, encimado pela cruz (símbolo de fé e de fraternidade) foi edificado por nós neste cantinho da frèguezia, em comemoração dos dois centenários, dessas festas evocativas da rota gloriosa que Portugal traçou no mundo, desde o seu providencial nascimento em Ourique até aos tempos auspiciosos que vão passando. Nós queremos também neste ano jubiloso de 1940, relembrar os feitos heróicos, praticados pelos portugueses, quer nas horas festivas da nossa Independência, quer nas horas redentoras da nossa Restauração, quer ainda nestas horas que passam, de verdadeira e reconstrutiva Revolução social.
Quando D. Afonso Henriques combatia pela nossa Independência nos campos de Ourique, viu no Céu o sinal que lhe prometia a vitória. Na Cruz que Cristo lhe mostrava lá no alto, estavam garantidos o milagre e a promessa que, em pouco tempo, se haviam de realizar. In hoc signo vinces - Com êste sinal vencerás! estava lá escrito. E o príncipe venceu. E aquela hora que Deus marcou com êste sinal, no Céu, firmou a nossa Independência, já oito vezes secular, e, o que Portugal foi durante êsses oito séculos dí-lo a nossa História cheia de heroismos, repleta de tradições gloriosas.
A Cruz do Céu de Ourique, tinha-se ligado num amplexo imorredoiro à espada victoriosa do Rei Conquistador, e aquele abraço da Cruz e da Espada naquele campo histórico, foi o pronúncio do eterno cantar, sempre glorioso e cavalheiresco, da alma nacional.
A Cruz e a Espada, sempre aliadas, trabalhavam com fulgor e decisão o nosso lindo Portugal; fixavam-lhe as fronteiras, sacudindo para além delas os inimigos de Cristo, os crentes do Alcorão. Formada e consolidada a pátria metropolitana, tornava-se necessário dar ao mundo novos mundos, dar mais almas a Deus; era preciso alargar as fronteiras para terras longinquas, e fazer dêste Portugal do Santíssimo Sacramento e de Santa Maria, dêste Portugal pequenino em território, um Portugal maior, com novas terras que desconheciam Deus e que o mundo desconhecia.
A Providência que move tudo, colocava no solitário promontório de Sagres a insinuante e meditabunda figura de sábio, o Infante D. Henrique, a medir o Oceano e o Céu, a estudar a profundidade dos seus mistérios, adivinhar-lhes as suas surprezas. E depois... a seguir, a sulcar as ondas, partiu essa pleiade de navegadores e de gigantes, que domou as águas e conquistou impérios.
A geração ínclita do Mestre de Aviz, preparava e comandava assim por mares nunca dantes navegados, sob a sigla da Cruz, traçada nas velas das naus e das caravelas, essas embaixadas de mareantes, de missionários e santos a conquistar almas para Deus, a dar-nos territórios. Portugal irrequieto tinha a sêde das conquistas: a conquista de Deus; a conquista das almas; a conquista de glórias. E a êsse espírito de conquistador, aliava perfeitamente uma vida de continuidade sôbre as maravilhas operadas.
Portugal não descançou à sombra das honras das vitórias que lhe engrinaldaram a fronte. Ele viveu a vida intensa de soldado, de trabalhador da terra, de explorador do mar, de descobridor e como que amalgamou nestas lindas prendas de antanho, uma outra vida mais sublime, mais esplendorosa e espiritual. Continuou sempre a sua vida de missão, de portador de uma doutrina tôda celeste, duma civilização que a selva desconhecia.
Portugal foi e é sempre missionário, antes de ser soldado. Por tôda a parte que caminhava, levava a cruz e cingia a espada. A época dos descobrimentos foi para êle um cântico mais retumbante, um hino permanente, que se fêz ouvir através do mundo. É que Deus estava com êle. Antes da largada para essas emprezas arriscadas e desconhecidas, e que Deus havia de abençoar, ouvia-se missa e comungava-se na praia do Restelo resava-se no convés das caravelas e depois... celebrava-se aos indígenas, prègava-se e batisava-se pelas selvas virgens que, desde êsse momento ficavam fazendo parte do império português.
Os padrões que a dinastia de Aviz ia firmando pelas praias e pelas terras descobertas na Ásia, na África, na América e na Oceania, ao mesmo tempo que nos garantiam o domínio de um grande império atestavam também o valor da nossa raça, a coragem dos nossos soldados e mareantes, a vitalidade magnífica da nossa Independência indestrutível. No vértice daqueles padrões do deserto, ficava sempre a sobrepujá-los o brasão das quinas ou das cinco chagas e a Cruz de Cristo. É por isso que Camões celebrou em dois versos do seu imortal poema... aqueles Reis que foram dilatando... a Fé e o Império... É por isso que nós hoje e Portugal inteiro, comemoramos os centenários da Independência e da Restauração fixando na teara portuguesa os tradicionais cruzeiros ou os plintos, encimados por Jesus cruxificado...
Desde 1139, Fundação da Nacionalidade, até ao desastre de Alcácer Kibir, Portugal nunca teve um eclipse a interceptar-lhe o seu Céu constelado de conquistas e de glorias. A bênção de Deus pairava acolhedora sobre êste jardim à beira mar plantado, assim como velava sôbre os seus domínios e climas tropicais da África e dos Brasis, ou sôbre as longínquas feitorias da Índia e de Timor. Ao de D. Sebastião seguiram-se sessenta anos de cativeiro, mas a alma nacional não tinha morrido, nem afrouxado. Se alguns traidores houve um dia, se suportamos o peso da decadência por que nos fêz passar o domínio dos reis castelhanos, jamais na alma verdadeiramente portuguesa deixaram de faíscar a centelha e o génio de brio nacional.
Portugal queria viver das suas tradições gloriosas, queria sacudir o jugo e o opróbrio que o humilhavam, queria a sua Independência. No esplendor dos palácios como tugúrios dos pobres a alma nacional ia-se retemperando na dôr e todos de mãos suplicantes pediam a Deus que afastasse a desgraça. Soou finalmente a hora do resgate. E o primeiro de Dezembro de 1940 [1640, e não 1940, como refere o jornal], ao bater a primeira badalada das nove horas, no relógio da tôrre, quarenta fidalgos portugueses saem das carroças, precipitam-se pelo palácio do Terreiro do Paço e D. Miguel de Almada com as lágrimas nos olhos, louco de alegria, exclama: Deus fêz o milagre e a promessa de Cristo a D. Afonso Henriques está cumprida.
Miguel de Vasconcelos, o traidor, tinha sido lançado pela janela fora e foi morto. O oitavo Duque de Bragança foi proclamado rei de Portugal com o título de D. João IV. As orações do bispo, D. Rodrigo da Cunha, tinham sido ouvidas na capela mór da Sé de Lisboa. A Igreja continuava a sua missão patriótica de guindar Portugal à exuberância da sua vitalidade. Portugal não morria e não deve morrer.
Pela ligeira resenha que acabais de ouvir deveis tirar a conclusão de que os nossos padrões e os nossos cruzeiros têm simbolizado através de todos os tempos o domínio político-religioso de Portugal sobre os territórios tomados, mais ainda, o domínio espiritual de Cristo sôbre as almas.
Meus senhores: acabamos de fazer o descerramento, bênção e inauguração do nosso Cruzeiro do Duplo Centenário da Independência e Restauração de Portugal. Resta agradecer e felicitar a digna Comissão dêstes festejos que se não tem poupado a trabalhos para que tudo corresse bem, a bem da Nação e a bem da nossa frèguezia e por último a incitar o povo a que todo concorra com donativos compatíveis com as suas possibilidades, para que assim cada um possa dizer que tem um grão de pedra neste monumento que é da frèguezia e que aqui fica a ser contemplado e venerado por vós e pelos vossos vindouros por largos séculos.
Salvé! Ó Cruz bendita! Cruzeiro da Independência e da Restauração! Padrão imorredoiro que aqui ficas a atestar a quantos passam o nosso amor por Portugal. A êstes, e àqueles que te contemplam com mais amor ainda; e com mais piedade, ficas aqui a patentear a tua Cruz e as chagas do teu Cristo, que já os nossos maiores levaram pelas terras e pelos mares, e que os homens de hoje levam nas azas dos aviões pelos ares! Salvé! Cruz..."
NOTA: Transcrição fiel e integral, com respeito, obviamente, pela ortografia da época.
F.M.

domingo, 12 de abril de 2009

Celebração da Páscoa

Sabia que... por estas bandas das Gafanhas, a Páscoa era celebrada com pompa e circunstância? A semana santa, como etapa final da Quaresma, com todos os seus rituais, começava na segunda-feira. Na 5ª, 6ª e sábado havia, como há ainda hoje, o Tríduo Pascal. Eram chamados padres, vindos das paróquias vizinhas, para pregar aos fiéis (na altura ainda os havia!). Subiam ao púlpito, que só já existe nas igrejas antigas, e faziam uso dos seus dotes de oratórica. Não me lembro propriamente das palavras dos prelados, mas retenho, na minha memoriazinha de criança, algo que me impressionou: os gestos histriónicos do orador, aliados às suas inflexões de voz, consoante o teor do sermão, davam à prédica quaresmal um tom sinistro. Às vezes parecia estar a ralhar com as pessoas e eu, que não tinha feito nenhuma asneirita, nesse dia, perguntava à minha mãe: - Ó mãe, aquele homem está a ralhar comigo também? Mas eu hoje portei-me bem! Na assembleia, toda a gente escutava com uma atenção devota, excepto aqueles que, cansados dos duros trabalhos agrícolas, cabeceavam. Não sei se deixavam sair por um ouvido, o que lhes entrara por outro. Será que nem sequer entrava? Boa pergunta para uma resposta possível. Integrava várias cerimónias, incluindo o lava-pés, na 5ª, com a morte de Cristo na 6ª e culminava no sábado santo, com a missa da meia-noite. Como grande simbolismo da festa da Páscoa, na hora em que se proclamava a ressurreição de Cristo, era queimado o Judas. Era um boneco em tamanho natural, vestido com roupas velhas e recheado/enchido de palha e desperdícios. Era apoteótico ver aquele “traidor” içado numa forca improvisada, ser consumido pelas chamas, para regozijo de todos os espectadores. Era um ritual, num misto de religioso e profano, como forma de demonstrar a vitória do Bem, sobre o Mal. No dia de Páscoa, propriamente dito, havia a visita pascal, feita pelo pároco da freguesia. Era uma “comitiva” composta pelo pároco e os seus “assessores”. Estes carregavam, nos cestos que traziam, as oferendas que constituíam a côngrua para o padre: ovos, feijão, milho, batatas, etc. Num meio, marcadamente rural e piscatório, tudo o que viesse à rede, era peixe! E do bom! A nível gastronómico, havia também alguns costumes que são dignos de registo. A expressão “ir à madrinha”, assenta as suas raízes no costume, muito praticado, de visitar os padrinhos, no dia de Páscoa. Era prática, nas Gafanhas, os padrinhos darem aos afilhados um folar de massa doce, com ovos cozidos. colocados por cima. Para que os ovos ganhassem uma cor mais atractiva, eram cozidos com cascas de cebolas. Ficavam entre o castanho e a cor de tijolo. O número de folares de uma família calculava-se desta maneita: n(filhos)X2. Imaginemos uma família com 5 filhos. Quantos folares se juntavam naquela casa? Nem mais nem menos, 10 folares! As crianças que só comiam esses pães doces, uma vez por ano, aguardavam, ansiosas, o dia em que pudessem saborear esse almejado petisco. Algumas mães de família, tinham o hábito de cozer ao sábado, outras já à 6ª feira. As que o faziam, neste dia, deparavam com um grande problema. Era 6ª feira santa, dia da morte do Senhor, pelo que a Igreja católica instituíra dia de jejum e abstinência. Assim, católico que se prezasse tinha que “guardar” essa restrição: comer menos, jejum, só podia comer-se às refeições e pouco. A abstinência consistia em se privar de carne neste dia. Era expressamente proibido pelas leis da Santa Madre Igreja, era um pecado capital! Se alguém comesse lagosta, por que não se incluía em nenhuma das subclasses da carne, nem pelo facto de ser do mesmo género feminino, já não era excomungado Falácias da própria Lógica humana! Agora, imagine o leitor, quando, na 6ª feira de aleluia, o ar impregnado do cheirinho dos folares… as crianças não podiam provar, sequer, o pão quentinho a sair do forno. Bem suplicavam à mãe: - ó mãe dê-me um bocadinho de folar, nem que seja só para lhe tomar o gosto! A mãe, se calhar com tanta vontade de dar como a vontade de comer da filha, dizia-lhe pesarosa: - só depois da meia-noite, até lá ainda é 6ª feira, dia de jejum e abstinência. As energias dispendidas durante o dia, nas brincadeiras, eram, na altura, muito salutares. Estar em frente de um computador ou de uma Playstation, era um mundo desconhecido! A contestaçãozinha vinha à flor da pele. Terá sido essa revolta amordaçada que mais tarde eclodiu na Revolta dos Cravos? No dia 25 de Abril! Um estudo psicanalítico poderá vir a prová-lo!!! O afilhado recebia dois folares: um do padrinho, outro da madrinha. O número de ovos variava consoante a idade do afilhado. Nem sempre correspondia exactamente ao número de anos, pois era impossível, mas havia certas idades como 5, 6, 7 anos, em que havia uma correspondência perfeita. Quando a rapariga estava casadoira, era difícil fazer um folar que correspondesse, quer em número de ovos, quer em tamanho, à idade da mesma. Diziam as mulheres que se ocupavam dessa tarefa, que tinham dificuldade em o passar na boca do forno, com a escudela (tigela grande de madeira). Dizia-se à boca cheia que era um folar do tamanho da roda de um carro. Nos dias consecutivos, comia-se folar até à saciedade!
M.ª Donzília Almeida

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O Mantarrota


Por estar no Algarve lembrei-me hoje de um aluno, cujo nome se me varreu da memória. Foi há 47 anos, na Escola da Chave. Na altura sentia-se um grande incremento na Pesca do Bacalhau. A Gafanha da Nazaré muito beneficiou dele, com empresas a darem trabalho a imensa gente, que vinha de todos os cantos do litoral português. Notávamos isso no linguajar dos que chegavam para ficar na região. Uma criança entra-me na sala por transferência. Quando indaguei da sua naturalidade, respondeu-me, com ar cândido, que era do Algarve, de Manta Rota. Logo a malta riu a bom rir, como era natural. Confesso que nunca tinha ouvido falar de tal terra e também sorri. E começou a conversa, naturalmente para levar o aluno à integração no meio escolar. E as perguntas, minhas e dos então seus colegas, surgiram, numa tentativa de se saber a origem de nome tão diferente dos que conhecíamos à nossa volta. Nessa época, viajava-se pouco. Os horizontes da grande maioria das crianças não ultrapassavam a ria e o mar. Tanto assim, que cheguei a encontrar, noutra escola onde leccionei, na Marinha Velha, da mesma freguesia, alunos que nunca tinham visitado a Barra e a Costa Nova, povoações que ficam, para quem não conhece bem a região, do outro lado da laguna. Na época bastava atravessar a ponte. E ainda encontrei outros que nunca tinham ido a Ílhavo e a Aveiro. Voltando atrás, lembro-me perfeitamente do ar de espanto provocado pela Manta Rota. O novo aluno também não fazia ideia da origem do nome da sua terra. Aliás, não seria fácil para uma criança entrar nos meandros da toponímia. Como nos nossos dias, está bem de ver. Depois do ar de espanto, gerou-se a simpatia. E no recreio houve um esforço para ajudar o novo colega a entrar nos jogos, em espaço apertado para a brincadeira. Como sempre, as imaginações juvenis são férteis em descobrir soluções para as suas exigências físicas. Dias passados e a malta já tinha descoberto a melhor maneira de identificar o algarvio, cujo pai era tripulante de um bacalhoeiro. Quando presenciava um jogo, em hora de recreio, notei que todos tratavam o colega por Mantarrota. Mantarrota para aqui, Mantarrota para acolá. E ele alinhava. Cheguei a lembrar, várias vezes, que ele tinha nome. Mas nada. Que me recorde, tratavam-no desse modo, sem qualquer acinte. Afinal, com amizade, até com carinho. A vida dá sempre muitas voltas. Mudei de escola e perdi-lhe o rasto. Sei que ficou pela Gafanha da Nazaré, porque há anos o encontrei. Não o vejo há muito tempo. Apeteceu-me recordá-lo por estar no Algarve. Deve andar por aí, pela nossa terra, com a família. Calculo que terá voltado às suas origens. À Manta Rota, perto de Tavira.
Fernando Martins

JORGE RIBAU BRINDA-NOS COM A CHORA

Receita O prato  A nossa gastronomia tem muito mérito com muitos sabores, mas tem estado um pouco esquecida, por culpa, nat...