A Borda

Portas d'Água

Para os gafanhões, a borda era o local de acesso mais fácil à Ria. Com maré baixa, era certo e sabido que o povo se abastecia de berbigões (cricos, na gíria popular), amêijoas, lingueirão de canudo e de uns peixitos que por ali cirandavam aflitos e sem força para chegar aos regos de água salgada. O mexilhão e lapas arrancavam-se das pedras que defendiam os terrenos das marés vivas. Há décadas, o marisco era apanhado livremente, dia a dia, sempre ao sabor das marés. Apenas se respeitavam, em obediência ao saber de experiência feito, os meses sem erre. Nessas alturas, sem avisos das autoridades marítimas, o povo sabia que as diarreias eram perigosas.
A borda era um convite à proximidade franca com a laguna. Nadava-se, chapinhava-se nas lagoas que a maré cheia deixava para deleite da pequenada. A borda era espaço de encontro e de cavaqueiras das gentes da pesca e da apanha do moliço, chamado arrolado, porque era oferecido de mão beijada pelas águas quando fugiam para o mar.
A borda beneficiava todas as Gafanhas e matava a fome a imensa gente. Mas a borda de hoje, não era como dantes. As obras portuárias, cais, diques, navios, arruamentos, ferrovia e outras estruturas ligadas às pescas, como estaleiros, oficinas e espaços comerciais, fecharam a sete chaves a ria aos gafanhões. A laguna ficou para turistas que por ela navegam em épocas de lazer. Agora, apenas num ou noutro recanto, ainda vale a pena arregaçar as calças para apanhar marisco. A cerveja fresquinha espera. 

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